Uma canção de Amor
Segunda-feira. João decidiu naquela manhã ignorar o despertador que lhe berrava desde as seis horas. Quis sentir-se rebelde, sem regras, sem horários para nada. Ali, deitado na cama ao lado da sua eterna Maria, queria desfrutar de tudo o que a vida lhe tinha dado. João observava o seu sono profundo, contemplando as suas feições belas e o seu perfil de sereia.
Do outro lado do colchão, a sua eterna Maria ressonava profundamente… Naquela mesa-de-cabeceira permanecia a luz de um candeeiro, acesa desde a noite anterior, que fazia companhia a um cinzeiro sobrelotado. Era uma mesa redonda, com uns restos de chocolate das várias vésperas, que ia estando inclinada para dentro, para o lado da cama. De tal forma inclinada que o comando da TV foi acompanhando o desnível em direcção à cama para se ir encostar ao nariz de Maria. A imagem de desconforto era de tal forma evidente que, se o Fernandinho ou a Belimundazinha decidissem entrar pelo quarto dentro, provavelmente se perguntariam por onde é que a mamã conseguiria respirar…
Mas a verdade é que respirava. Senão, não ressonaria tanto….
A cama tremia com o ressonar de Maria. Todo aquele corpo pesadão dançava com uma violência ritmada. Inspirava, e depois…. Ex...pi…ra…va… Inspirava, deixava o sol brilhar lá fora, os pássaros cantar, as crianças correr pela casa, deixava DaVinci terminar a capela Sistina com todo o tempo do Mundo, deixava até Pedro Abrunhosa inventar uma música nova em que mais de quatrocentas palavras se uniam e formavam uma melodia anarquicamente complexa e talvez até demais para os Deolinda… Mas depois…ex…pi…ra…va! Trevas! Trovões! Guerra dos Mundos! Invasões napoleónicas com tanques de guerra! Uma Kalashnikov a disparar sem alvo! Pim-pam-PUM! Tsunami! Cá vai bomba!
Mas João já estava atrasado! Não podia continuar na cama porque alguém tinha de trazer o dinheiro no fim do mês, e essa não poderia ser uma tarefa para a sua Maria, coitadinha, que tinha sempre tanto sono… Por isso, deixou a “ronha” que já se prolongava há dois minutos e cinquenta e oito segundos, tirou os óculos da sua mesinha-de-cabeceira e arrumou um bocadinho melhor o livro que lá estava, só para não cansar a sua amada quando ela acordasse. Ergueu as costas e sentou-se com os pés para fora da cama, sacudiu logo a almofadinha e espreguiçou-se baixinho, para não incomodar a sua bela adormecida, que ele tanto contemplava…. Era incrível, para João, observar que a sua Mariazinha conseguia estar cada vez mais bonita e saudável com o passar dos anos! E ali ficou, cerca de vinte e cinco minutos, a contemplar a sua mais-que-tudo, a sua florzinha, o seu texugo, a sua sereia delgadinha e perfeitinha…
Entretanto, Fernandinho e Belimundazinha brincavam aos Legos na sala. Mas só enquanto a mamã inspirava… Depois disso, a diversão passava por reconstruir o castelo do General Bigodes e esperar pelo novo terramoto!
A estadia de João na casa de banho demorou catorze segundos e picos. Aí, fez a barba – “que não tenho mas preciso de tirar, não vá isto começar a crescer a meio de uma reunião importante e depois eu vou ter de sair a correr e ir em direcção a uma casa de banho e remover tudo o que estiver a mais na minha cara” – lavou os dentes – “e se calhar devia mesmo passar um fio dental, não vá eu chegar ao escritório e ter um bocadinho de comida entre os dentes e não ter reparado a não ser já a meio de uma reunião importante da qual eu depois vou ter de sair a correr e ir em direcção a uma casa de banho e remover tudo o que estiver a mais na minha boca” – e tomou todo um duche com champôs anti-caspa, sabonetes líquidos, amaciadores e condicionadores, para cabelos lisos, brilhantes e firmes. Maria ficaria triste se soubesse que, a meio de uma reunião de segunda-feira, João tinha passado por uma embaraçosa queda de cabelos…
No carro de João, a música não variava muito; o posto de rádio, esse, era inalterável: “Amor cego FM, a rádio da mulher da sua vida.” Entre tantos êxitos musicais que ouvia nestas manhãs, havia uma melodia que João conhecia de trás para a frente: “Lágrimas de uma sereia”, o último êxito de Marco António, o ‘cantor do Amor’. Os versos, aparentemente simples, carregavam uma mensagem calorosa, com juras de amor eterno e repleta de beijos, carícias e sofás vermelhos com pétalas de um coração cristalino. Estas quadras de loucuras emocionais levavam o coração emotivo de João a telefonar, todas as manhãs, para a Linha do Amor, sediada nos estúdios da Amor Cego FM, a pedir para que passassem as harmonias de Marco António:
- Bom dia! Estou a falar com..?
- João, o apaixonado!
- Olá mais uma vez, meu caro amigo João! Então, como vai a sua relação com a nossa querida… Maria, certo? Sempre lhe ofereceu aquele conjunto de copos de cristal para celebrar o vosso aniversário de casamento?
- Sim! Ela agradeceu muito e disse que me ia recompensar…!
- E já recompensou?
- Ela recompensa-me todos os dias, com o seu sorriso lindo…
- Ora aqui está, nossos caros ouvintes, um exemplo de amor eterno! Todos os dias este nosso amigo João surpreende a sua amada com presentes e gestos de carinho espectaculares! (v.) Ó João, diga lá então – vejam que até rimei! - o que vai querer ouvir esta manhã na sua Amor Cego…
E mais uma vez, João pedia que passassem Marco António e a balada da sereia, naquela telefonia do carro cujas colunas gemiam pelo volume tão alto que tinham de reproduzir! E todos os dias se ouvia aquela balada. E todos os dias se ouvia a conversa da recompensa: ela recompensava-o todos os dias, com o seu lindo sorriso, mas nunca com presentes nem juras de amor eterno. Mas isso não o incomodava. A João incomodava-lhe mais se soubesse que o Fernandinho tinha acordado a mamã às três da tarde a perguntar se hoje iria às aulas. “Raça do miúdo! Se quiser ir às aulas, que pegue numas moedas e apanhe o autocarro! Tem seis anos, já tem idade! Ele que deixe a minha pequena sereia dormir descansada! Coitadinha, anda sempre tão cansada…”
O dia de trabalho no escritório parecia uma eternidade. A única consolação de João cingia-se ao facto de ter enfeitado a sua secretária com fotografias da sua amada: o ecrã do computador tinha a imagem do seu anjo; o pano que permite deslizar o rato do computador tinha sido personalizado e exibia agora uma imagem do seu anjo; o calendário ia ainda em 2010 e dizia, nesse mês: “Amo-te, meu anjo, só porque é Abril!”; a moldura centrada na sua secretária tinha a forma de um coração com uma foto do dia do seu casamento, à porta da igreja, onde aparentemente choveu arroz.
Mas o dia de trabalho no escritório parecia uma eternidade para João... Não lhe bastavam as fotografias, o fundo de ecrã do telemóvel com um poema de Amor que este lhe escrevera, nem as músicas de Marco António que continuava a ouvir, apaixonadamente, no seu transístor. Enquanto não estivesse nos seus braços, enquanto não a sentisse a apertá-lo com a força do amor e a garra de quem ama, não conseguiria sentir-se realizado.
Então nessa segunda-feira João pediu ao seu patrão para sair mais cedo, justificando-se com uma ida ao médico. Pegou no carro e voou, em direcção a casa, aproveitando todos os atalhos que conhecia, até aqueles de sentido proibido. Na viagem, conduzia com a mão direita e aumentava sistematicamente o volume das pobres colunas de som com a esquerda, sempre que ouvia a doce voz de Marco António. Assobiou alguns dos versos daquele cantor, (o.r.e.) que já considerava ser da sua família, declamou poemas de amor e acompanhou a versão portuguesa do “All you need is Love” que passava agora na Amor Cego FM.
Os poemas amorosos que João escrevera para ela na semana anterior tinham agora um lugar especial no seu reportório musical. O carro chiava nas curvas, as colunas calavam-se nas lombas, mas João, esse, não parava nem por um segundo de cantar à sua amada.
Chegou a casa.
Sem avisar.
Vinha-lhe preparar um jantar surpresa.
Atravessou a entrada, a cozinha e a sala, sempre lentamente…. para não a acordar….
Sem querer, pisou um brinquedo do Fernandinho: o ainda firme General Bigodes. Mesmo assim, e entre gemidos silenciosos de uma dor insuportável, o apaixonado caminhou, determinado, acompanhando-se do seu General em direcção ao quarto. Com uma caixa de bombons na mão direita - e o Bigodes no pé esquerdo – cumpriria a penosa mas sempre recompensadora missão de declamar poesia à sua Fofinha. Avançou, pé ante pé, até à porta do quarto, até que inaugurou aquela tarde poética:
“Oh! Meu amor! Oh! Minha amada! Oh! Pétalas de sol que brilham no horizonte ofegante de um amor que não esqueci! Por detrás das grades que nos separam de nos abraçarmos está uma libelinha apaixonada que regozija no meu peito!”
“Ó mar salgado, inundar-te-ei no dia em que morrerei pela minha Maria!”
Mas Maria não respondeu.
João entrou, e Maria não lá estava. Em cima do cinzeiro que agora estava na cama via-se um bilhete amarrotado. João parou. Avançou para o bilhete. Abriu três quartos da folha, começando a ler devagarinho…
“João…”
“Desculpa…”
“Mas às vezes, o amor… tem destas coisas….”
“Hoje acordei e decidi fugir….”
“Conheci um homem fantástico…”
“Chama-se…”
João teve de abrir o último pedaço da folha para poder continuar:
“Chama-se Marco António. É o cantor do Amor. Ele fez-me juras de amor eterno.”
Um blogue não muito complexo. Um espaço despretencioso, humilde, totalmente amador e que, por isso, precisa de críticas. Muitas!
Estou bem acompanhado...!
terça-feira, 12 de abril de 2011
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Rapsódia fadista
O filme que aqui é apresentado foi colocado recentemente a circular pelas redes sociais, e o "feedback" tem sido impressionante. Este é um pequeno exemplo da qualidade fadista portuguesa, da alegria como se canta o Fado pelas casas de Lisboa e da diversidade estilística que as novas gerações têm vindo a trazer para este meio. Tudo isto é genuíno, tudo isto é único.
Agora, silêncio... Que se vai cantar o FADO!
Guitarras Portuguesas:
- Bernardo Romão
- Diogo Lucena e Quadros
Viola de Fado:
- João Veiga
- Luís Roquette
Baixo:
- Francisco Gaspar
Fadistas ( por ordem de artista):
- Francisco Salvação Barreto
- Matilde Marçal
- João de Sousa Franco
- Carmo Moniz Pereira
- Francisco Franco de Sousa
- Leonor Granate
- Gonçalo Castelbranco
- Isabel Costa de Sousa
- Manuel Marçal
Desde já um agradecimento especial à produção do vídeo, composta pelos irmãos Carlos e Vasco Vieira!
Agora, silêncio... Que se vai cantar o FADO!
Guitarras Portuguesas:
- Bernardo Romão
- Diogo Lucena e Quadros
Viola de Fado:
- João Veiga
- Luís Roquette
Baixo:
- Francisco Gaspar
Fadistas ( por ordem de artista):
- Francisco Salvação Barreto
- Matilde Marçal
- João de Sousa Franco
- Carmo Moniz Pereira
- Francisco Franco de Sousa
- Leonor Granate
- Gonçalo Castelbranco
- Isabel Costa de Sousa
- Manuel Marçal
Desde já um agradecimento especial à produção do vídeo, composta pelos irmãos Carlos e Vasco Vieira!
segunda-feira, 28 de março de 2011
Crítica a um livro de Mário de Carvalho
Mário de Carvalho
Edições Caminho
Uma viagem ao ‘Portugal dos pequeninos’
Seria realmente interessante trocar algumas ideias sobre este assunto ‘puxado’ por Mário de Carvalho: a sociedade. Esta é uma obra baseada nas pessoas, e não no enredo. O autor escolhe personagens típicas dos dias de hoje, que dão a sensação de serem pessoas reais, à semelhança daqueles que pertencem aos pequenos ‘mundos’ dos próprios leitores. É quase inevitável ouvir-se daqueles que já leram o livro algo como ‘este Joel é igual ao meu amigo Carlos, que também tinha sempre umas histórias muito estranhas…’ ou mesmo que ‘esta Eduarda parece a minha ex-namorada!’
A novela relatada pelo autor tem como fio condutor a vida de Joel Neves, um “cinquentão e de físico para o esguio”, pai de um rapazinho delinquente que é incrivelmente ‘apaparicado’ pela sua mãe. Esta figura maternal – Cremilde – acompanha a vida do filho a todo o tempo, dedicando-se a cuidar dele enquanto o marido exerce as suas funções de “bibliotecário” para as quais terá sido ‘promovido’. Pelo caminho, aparece Eduarda Galvão que, sem acrescentar detalhe algum, se afigura como a nora que ninguém deseja. As páginas vão passando, e os acontecimentos da vida do protagonista vão-se misturando com outras vidas, com outros (interessantes) dramas familiares, profissionais e políticos.
Mário de Carvalho avisa os leitores, logo antes do início da obra, que “este livro contém particularidades irritantes para os mais acostumados. Ainda mais para os menos. Tem caricaturas. Humores. Derivações. E alguns anacolutos.”.
E é verdade. Especialmente, a parte das descrições “irritantes” e exageradamente completas que o autor faz questão de aplicar na sua escrita. Não é menos verdade, no entanto, que as descrições são incrivelmente esclarecedoras e enriquecem a obra em toda a sua extensão; se Mário de Carvalho não as tivesse explorado desta maneira, decerto este seria um dos livros mais aborrecidos da História…
Os lugares, as gentes e os momentos são, então, de tal maneira bem descritos que o leitor até se sente parte da história. Sente-se tão omnisciente quanto o próprio narrador, um exímio avaliador de tudo o que envolve a novela. As suas apreciações no desenrolar dos acontecimentos revelam-se tão intensas que Mário de Carvalho acaba por gozar com tudo. Nem o vinho que se encontra à mesa de uma tasca castiça desinteressa ao narrador: sim, aquela “horrenda zurrapa, mas que ali, convencionalmente, ganhava foros de tinto-da-casa-como-se-não-encontra-noutro-lugar,-vindo-especialmente-dum-armazém-de-Palmela.” O humor aplicado na narrativa é tudo menos suave, e ele próprio faz questão de que assim o seja.
Aliado às descrições, o vocabulário utilizado pelo escritor afigura-se incrivelmente requintado, ao mesmo tempo que apresenta uma narrativa simpaticamente explicativa onde não permite que se perca «o fio à meada». Esta é a particularidade mais engraçada do livro: Mário de Carvalho pretende descrever as ‘personagens’ e os lugares da nossa sociedade, e fá-lo muitas vezes de uma forma muito extensa – e até pejorativa; porém, quando sente que está a ser demasiado descritivo e minucioso, regressa ao assunto contextualizando a descrição e explicando, sempre que necessário, o porquê de tanta precisão.
O título da obra não é, à partida, muito apelativo. A opção por este “Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto” dá a sensação de que o livro se vai encher de divagações, opiniões carnívoras sobre assuntos delicados, ou que simplesmente o autor quer esclarecer assuntos pendentes da sua vida pessoal. Na verdade, o título é parte integrante da obra. Aliás, o título suporta toda a obra, porque se encontra por diversas vezes nas linhas – mais tardias – do livro. Por outro lado, toda esta narrativa é premiada com discussões ‘de cafés’ e com personagens que fazem questão de ‘opinar’ sobre tudo e sobre todos, sempre convictos de que ter razão é a razão das suas existências.
No fim de contas, quem tem razão é Mário de Carvalho. As sociedades contemporâneas encheram-se de ‘personagens’ complexas e intrigantes, que se envolvem diariamente em peripécias esquisitas e, por vezes, até humilhantes. Este livro será, então, o condensar de todas as caricaturas da sociedade - portuguesa - num enredo realístico e verdadeiramente interessante. Com uma pitada de humor, por vezes até negro, o autor conta a história de um “Portugal dos pequeninos” onde tudo e todos são tema de conversa.
Era bom que trocássemos umas ideias sobre este assunto de duzentas e treze páginas…
sábado, 19 de março de 2011
Um Engenheiro Civil
Foi na faculdade de Engenharia Civil que Gonçalo Andrade e Sousa sentiu que estava no caminho certo. Com um período de adaptação relativamente longo, por vezes até desgastante, hoje este aluno do 3º ano do Instituto Superior Técnico de Lisboa está confiante em relação ao seu futuro, demonstrando-se orgulhoso por poder frequentar uma faculdade tão prestigiada e bem preparada para formar Engenheiros competentes como é o Técnico. A bagagem que levam daqui é grande. A fasquia que lhes impõem é, também, por isso, bastante elevada...
GCB. - Acontece-te muitas vezes não ires a uma aula para ficar em casa a estudar para uma cadeira?
GAS. - Hoje em dia já não faço isso...
No primeiro ano, declaradamente, achava que havia cadeiras que não valia a pena frequentar. Preferia ficar em casa a estudar, pelos livros. Hoje em dia prefiro ir às aulas. Ao fim ao cabo, reduz-me o tempo de estudo...
GCB. - A carga horária é exageradamente pesada?
GAS. - A carga horária não é pesadíssima. O volume de estudo é que é enorme. Chega a ser, em casa, igual ao tempo que gasto na faculdade. Ou seja, imagina que tenho quatro a cinco horas de aulas por dia, à tarde. Depois em casa, estudo mais duas ou três horas ainda nesse dia. Aliás, eu até prefiro este horário de tarde, porque consigo estudar muito mais à noite do que durante dia. Rende-me bastante mais estudar a essas horas.
GCB. - E o grau de dificuldade do IST é também enorme?
GAS. - Não é enorme... O curso, em si, é difícil. Há cadeiras com um grau de dificuldade enorme, mas depois há cadeiras menos difíceis. Portanto, em média, o grau de dificuldade é difícil.
GCB. - Qual foi o ano mais difícil até agora?
GAS. - Em termos de cadeiras foi o segundo. Deixei seis cadeiras nesse ano. Mesmo assim, ainda tive de passar a quatro cadeiras de 1º ano...
Este 3º ano "arrumei" tudo o que estava para trás dos primeiros semestres e fiz mais duas cadeiras de 3º ano.
GCB. - E como é que foi a adaptação ao primeiro ano de Faculade?
GAS. - Acabei com 16.6 valores no Colégio para entrar em Engenharia. Quando cheguei ao Técnico, o choque foi grande. É uma realidade totalmente diferente. Muito mais exigente. Se bem que o primeiro semestre do 1º ano me tenha corrido relativamente bem. Mas, manter esse ritmo de estudo... Isso é que se torna mais difícil...!
GCB. - E depois o 2ºano...?
GAS. - Mesmo em termos de material leccionado, o 2º ano foi o mais difícil...
No primeiro ano recebem-se as bases, mas no segundo sentimo-nos a entrar no "ex-libris" da dificuldade...
GCB. - Qual a tua cadeira preferida até agora?
GAS. - Resistência dos materiais, do 2º ano. Já a chumbei mas estou a repetir agora. É a cadeira que se associa mais ao curso em si.
GCB. - Fala-nos um bocado dessa disciplina...
GAS. - Começa-se por consolidar as bases de mecânica, ou seja, análise de corpos rígidos, as acções das forças sobre os corpos estáticos, e depois introduz-se a análise de estruturas. Ou seja, aprendes tudo sobre compressões e tracções, observas os comportamentos dos materais e acabas a estudar flexão de vigas.
GCB. - Em relação aos dias de aulas, perdes muitas vezes a noção da semana, ou vais-te situando consoante as cadeiras que vais tendo durante os dias?
GAS. - As minhas semanas não são muito "rotineiras". Têm uma certa dînâmica.... Há dias em que eu falto a uma ou duas aulas e, se calhar, no dia a a seguir já compensei a falta com uma aula de dúvidas.
GCB. - E tens aulas de dúvidas sempre que precisas?
GAS. - As aulas de dúvidas são estipuladas pelos professores. No início do ano, eles estipulam aulas teóricas, práticas, aulas de dúvidas, etc... Fora disso, são quase incontactáveis. Talvez por isso é que estipulam tudo logo no princípio...
GCB. - Fora da tua vida no Técnico, quais são, então as tuas principais distracções?
GAS. - Basicamente aproveito para jogar futebol e sair à noite... Mas também não fixo, por exemplo, a Sexta-feira ou Sábado para ir sair. Já passei essa fase, acho eu...!
GCB. - Agora vejamos em tom de "previsões para o futuro"... Sentes que estás a adquirir as bases necessárias para ser um bom engenheiro civil?
GAS. - É engraçado que eu não consigo dizer com toda a certeza que sim, mas pela reputação que o IST tem, e até pela dose "industrial" de material teórico que recebes 'da coisa', tenho quase a certeza de que vou mais do que bem preparado. A ideia que eu tenho sempre é de que tu precisas sempre de saber "x", mas no IST ensinam-te "x mais 100"; e tu, para saberes o "x mais 100" tens pelo menos de saber esse "x" muito, muito bem...
GCB. - É essa a prioridade dos professores?
GAS. - Sim, sim... Por exemplo, nesta cadeira de Resistência dos Materiais tens Resistência dos Materiais I, Resistência dos Mateirais II e acabas com uma parte de Análise de Estruturas, que é um "pegar em tudo" e aplicar para dentro de uma estrutura. Agora, o "tudo" que vem para trás implica um conhecimento dos comportamentos dos mateirais enorme. Ou seja, estudamos exaustivamente todas as possíveis situações e desafios desta profissão. Mas imagino que, na realidade, e enquanto engenheiro, provavelmente não terei de aplicar metade das coisas que aprendi.
---
GCB. - Acontece-te muitas vezes não ires a uma aula para ficar em casa a estudar para uma cadeira?
GAS. - Hoje em dia já não faço isso...
No primeiro ano, declaradamente, achava que havia cadeiras que não valia a pena frequentar. Preferia ficar em casa a estudar, pelos livros. Hoje em dia prefiro ir às aulas. Ao fim ao cabo, reduz-me o tempo de estudo...
GCB. - A carga horária é exageradamente pesada?
GAS. - A carga horária não é pesadíssima. O volume de estudo é que é enorme. Chega a ser, em casa, igual ao tempo que gasto na faculdade. Ou seja, imagina que tenho quatro a cinco horas de aulas por dia, à tarde. Depois em casa, estudo mais duas ou três horas ainda nesse dia. Aliás, eu até prefiro este horário de tarde, porque consigo estudar muito mais à noite do que durante dia. Rende-me bastante mais estudar a essas horas.
GCB. - E o grau de dificuldade do IST é também enorme?
GAS. - Não é enorme... O curso, em si, é difícil. Há cadeiras com um grau de dificuldade enorme, mas depois há cadeiras menos difíceis. Portanto, em média, o grau de dificuldade é difícil.
GCB. - Qual foi o ano mais difícil até agora?
GAS. - Em termos de cadeiras foi o segundo. Deixei seis cadeiras nesse ano. Mesmo assim, ainda tive de passar a quatro cadeiras de 1º ano...
Este 3º ano "arrumei" tudo o que estava para trás dos primeiros semestres e fiz mais duas cadeiras de 3º ano.
GCB. - E como é que foi a adaptação ao primeiro ano de Faculade?
GAS. - Acabei com 16.6 valores no Colégio para entrar em Engenharia. Quando cheguei ao Técnico, o choque foi grande. É uma realidade totalmente diferente. Muito mais exigente. Se bem que o primeiro semestre do 1º ano me tenha corrido relativamente bem. Mas, manter esse ritmo de estudo... Isso é que se torna mais difícil...!
GCB. - E depois o 2ºano...?
GAS. - Mesmo em termos de material leccionado, o 2º ano foi o mais difícil...
No primeiro ano recebem-se as bases, mas no segundo sentimo-nos a entrar no "ex-libris" da dificuldade...
GCB. - Qual a tua cadeira preferida até agora?
GAS. - Resistência dos materiais, do 2º ano. Já a chumbei mas estou a repetir agora. É a cadeira que se associa mais ao curso em si.
GCB. - Fala-nos um bocado dessa disciplina...
GAS. - Começa-se por consolidar as bases de mecânica, ou seja, análise de corpos rígidos, as acções das forças sobre os corpos estáticos, e depois introduz-se a análise de estruturas. Ou seja, aprendes tudo sobre compressões e tracções, observas os comportamentos dos materais e acabas a estudar flexão de vigas.
GCB. - Em relação aos dias de aulas, perdes muitas vezes a noção da semana, ou vais-te situando consoante as cadeiras que vais tendo durante os dias?
GAS. - As minhas semanas não são muito "rotineiras". Têm uma certa dînâmica.... Há dias em que eu falto a uma ou duas aulas e, se calhar, no dia a a seguir já compensei a falta com uma aula de dúvidas.
GCB. - E tens aulas de dúvidas sempre que precisas?
GAS. - As aulas de dúvidas são estipuladas pelos professores. No início do ano, eles estipulam aulas teóricas, práticas, aulas de dúvidas, etc... Fora disso, são quase incontactáveis. Talvez por isso é que estipulam tudo logo no princípio...
GCB. - Fora da tua vida no Técnico, quais são, então as tuas principais distracções?
GAS. - Basicamente aproveito para jogar futebol e sair à noite... Mas também não fixo, por exemplo, a Sexta-feira ou Sábado para ir sair. Já passei essa fase, acho eu...!
GCB. - Agora vejamos em tom de "previsões para o futuro"... Sentes que estás a adquirir as bases necessárias para ser um bom engenheiro civil?
GAS. - É engraçado que eu não consigo dizer com toda a certeza que sim, mas pela reputação que o IST tem, e até pela dose "industrial" de material teórico que recebes 'da coisa', tenho quase a certeza de que vou mais do que bem preparado. A ideia que eu tenho sempre é de que tu precisas sempre de saber "x", mas no IST ensinam-te "x mais 100"; e tu, para saberes o "x mais 100" tens pelo menos de saber esse "x" muito, muito bem...
GCB. - É essa a prioridade dos professores?
GAS. - Sim, sim... Por exemplo, nesta cadeira de Resistência dos Materiais tens Resistência dos Materiais I, Resistência dos Mateirais II e acabas com uma parte de Análise de Estruturas, que é um "pegar em tudo" e aplicar para dentro de uma estrutura. Agora, o "tudo" que vem para trás implica um conhecimento dos comportamentos dos mateirais enorme. Ou seja, estudamos exaustivamente todas as possíveis situações e desafios desta profissão. Mas imagino que, na realidade, e enquanto engenheiro, provavelmente não terei de aplicar metade das coisas que aprendi.
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segunda-feira, 14 de março de 2011
Um fado...
Todas as noites um PagemO Pagem
Com voz linda e maviosa
Ia render homenagem
À marquesinha formosa
Mas numa noite de agoiro
O marquês, fera brutal
Naquela garganta de oiro
Mandou cravar um punhal
E a marquesa, delirante,
De noite em seu varandim
Pobre louca, alucinante
Chorando cantava assim
Ó minha paixão querida
Meu amor, meu pagem belo,
Foge sempre minha vida
Deste maldito castelo!
domingo, 13 de março de 2011
Terço no Paredão
O Estoril é, ainda hoje, um dos principais destinos turísticos de milhares de viajantes. O mar "entra" por todo o lado, e talvez por isso o ar seja ainda, ali, "respirável". A noite cerca as ruas de luz, de brilho, de calma.
Sem perturbar nenhum dos sentidos, é também a noite que traz tantos e tantos curiosos: erguem-se grandiosos espectáculos no Casino; servem-se imperiais nas Arcadas; dança-se de forma exagerada nas pistas de dança da discoteca do Tamariz. Tudo acontece neste Estoril, onde o Sol raramente se ausenta e a Lua faz questão de se deitar nas praias...
É precisamente essa Lua que alimenta a "loucura" de outros tantos viajantes...
Desde Junho do ano passado, o paredão do Estoril passou a "acolher" um evento único e de uma simplicidade invejável: o Terço. Todas as noites, às 21.30h, reúnem-se pessoas de todas as idades, raças e feitios para um momento de oração humilde e verdadeira, num ambiente sóbrio e despretencioso. Ali, nada mais é preciso senão uma pessoa, uma voz, uma intenção. Ali Só o Homem e Deus bastam...
A força de rezar em comunidade era já uma realidade antes do Terço no Paredão; no entanto, e num Estoril tão vivo, foi para muitos católicos o despertar para a necessidade de enraizar o Terço no seu dia-a-dia. O Mundo precisa disso. A Igreja precisa disso. Os Homens precisam, tanto, disso!
"Uns dias somos vinte, outros dias somos cinquenta; às vezes somos só cinco ou seis. E não há drama nenhum nisso!". Estas palavras sorridentes do Prior da Paróquia do Estoril, Padre António, relembram a ideia de que a intenção do Terço não é encher o Paredão de 'luzes de holofotes', mas simplesmente construir e fortalecer a Fé através da oração. Efectivamente, o projecto começou com dois "loucos" - um dos quais o próprio Prior - numa madrugada em pleno Verão, onde as conversas acesas se adivinhavam insuficientes sem a tal "pausa" para rezar. Conta-nos, calmamente, Padre António: "Ele desafiou-me, no meio de uma conversa, a iniciarmos o Projecto TP (Terço no Paredão) naquele segundo. Estávamos em minha casa. A minha única reacção foi perguntar-lhe se ia estar frio lá fora..."
A simplicidade do Terço acaba por fundir-se com a música. Sempre que há possibilidade, alguém pega numa guitarra e a leva até à Praia do Tamariz para tocar qualquer coisa que venha a "calhar". E nessas noites, contam os próprios "loucos", torna-se inquestionável o facto de que "cantar é rezar duas vezes". Às vezes é, pois, inevitável ter de se cantar um pouco mais alto do que o habitual: As danças exageradas do Tamariz são alimentadas por umas colunas de som altamente cativantes!
A verdade é que, a cada dia que passa no Estoril, o ar se torna cada vez mais "respirável". As ruas brilham, o paredão brilha, a Lua continua a adormecer nas praias... Simplesmente, é uma Lua que se deita mais tarde do que as outras, porque aproveita para rezar o Terço no Paredão!
Sem perturbar nenhum dos sentidos, é também a noite que traz tantos e tantos curiosos: erguem-se grandiosos espectáculos no Casino; servem-se imperiais nas Arcadas; dança-se de forma exagerada nas pistas de dança da discoteca do Tamariz. Tudo acontece neste Estoril, onde o Sol raramente se ausenta e a Lua faz questão de se deitar nas praias...
É precisamente essa Lua que alimenta a "loucura" de outros tantos viajantes...
Desde Junho do ano passado, o paredão do Estoril passou a "acolher" um evento único e de uma simplicidade invejável: o Terço. Todas as noites, às 21.30h, reúnem-se pessoas de todas as idades, raças e feitios para um momento de oração humilde e verdadeira, num ambiente sóbrio e despretencioso. Ali, nada mais é preciso senão uma pessoa, uma voz, uma intenção. Ali Só o Homem e Deus bastam...
A força de rezar em comunidade era já uma realidade antes do Terço no Paredão; no entanto, e num Estoril tão vivo, foi para muitos católicos o despertar para a necessidade de enraizar o Terço no seu dia-a-dia. O Mundo precisa disso. A Igreja precisa disso. Os Homens precisam, tanto, disso!
"Uns dias somos vinte, outros dias somos cinquenta; às vezes somos só cinco ou seis. E não há drama nenhum nisso!". Estas palavras sorridentes do Prior da Paróquia do Estoril, Padre António, relembram a ideia de que a intenção do Terço não é encher o Paredão de 'luzes de holofotes', mas simplesmente construir e fortalecer a Fé através da oração. Efectivamente, o projecto começou com dois "loucos" - um dos quais o próprio Prior - numa madrugada em pleno Verão, onde as conversas acesas se adivinhavam insuficientes sem a tal "pausa" para rezar. Conta-nos, calmamente, Padre António: "Ele desafiou-me, no meio de uma conversa, a iniciarmos o Projecto TP (Terço no Paredão) naquele segundo. Estávamos em minha casa. A minha única reacção foi perguntar-lhe se ia estar frio lá fora..."
A simplicidade do Terço acaba por fundir-se com a música. Sempre que há possibilidade, alguém pega numa guitarra e a leva até à Praia do Tamariz para tocar qualquer coisa que venha a "calhar". E nessas noites, contam os próprios "loucos", torna-se inquestionável o facto de que "cantar é rezar duas vezes". Às vezes é, pois, inevitável ter de se cantar um pouco mais alto do que o habitual: As danças exageradas do Tamariz são alimentadas por umas colunas de som altamente cativantes!
A verdade é que, a cada dia que passa no Estoril, o ar se torna cada vez mais "respirável". As ruas brilham, o paredão brilha, a Lua continua a adormecer nas praias... Simplesmente, é uma Lua que se deita mais tarde do que as outras, porque aproveita para rezar o Terço no Paredão!
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