Estou bem acompanhado...!

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Podcast2

Eis uma das três partes do meu trabalho para a disciplina de Novas Expressões de Rádio.

sábado, 18 de junho de 2011

Ser família

Ser família
É um fenómeno. As famílias são um fenómeno. Ser família é um dom impressionante, talvez pela sua simplicidade. Por mais ou menos unidas que pareçam, são sem dúvida a base sólida para toda a nossa vida. E é, ao mesmo tempo, a nossa missão e a nossa sorte tê-la e poder cultivá-la...
No entanto, torna-se preocupante a frequência com que asseguramos que “hoje em dia as coisas são diferentes”, numa crença inabalável de que ser família já não é como era antigamente. Fogem-nos estas ideias porque a sociedade o exige…Mas também temos de exigir mais de nós!
Daí que o título deste texto seja “ser família”. Talvez se eu fosse mais extremista acrescentaria a expressão “Aprender a…”. Não o fiz, por um lado, porque não acho que seja preciso ensinarmos ninguém sobre o valor da família. Podemos gostar mais de um primo do que de outro, mas nunca nos esquecemos de nenhum. E por outro lado porque aprender implica falhar. Se o menino nunca largar a mão da Mãe por não querer correr o risco de cair de rabo no chão da sala, nunca vai andar “bem”, sozinho. Por isso, esta não é uma lição de vida. Quem me dera achar sequer que poderia ensinar algo a alguém! Estas linhas são apenas ideias de um filho que faz estupidezes todos os dias…
Aos filhos:
- Tudo o que se aprende quando crescemos vem de tudo o que nos rodeia. A vantagem de ter 20 anos é a de que ainda temos – ou devemos ter - “pachorra” para ouvir coisas novas, para discutir assuntos difíceis, para levar descomposturas dos outros. Talvez aos 70 anos já seja aceitável que essa “aptidão” esteja arrefecida. Ao mesmo tempo, as idades “verdes” são fenomenais. Faz-se o que se quer porque se vai ganhando essa confiança e “liberdade”. Lembro-me que adorava dormir em casa dos meus primos… mas só podia lá ficar se tivesse os trabalhos de casa feitos! O que é que isto não tem de fenomenal? Eu cumpro a minha parte, e o negócio é praticamente garantido!
É nesta idade que dá gozo, também, fazer estupidezes… E esta é a melhor parte. Podemos falhar, falhar, falhar, falhar! Fica tudo furioso, mas azar! “Estou no meu direito!”
Só há aqui um “pequeno” ponto. As estupidezes que se fazem não podem sobrepor-se àquilo para o qual fomos educados. Se o meu erro me vai fazer tropeçar na educação que tenho, não posso deixar. Consegue-se combater tudo menos a consciência; e essa quando pesa… pesa muito! Não há nada pior do que quebrar a confiança da mãe ou do pai. É humilhante e vergonhoso… é como ser apanhado a roubar chocolates no Continente. Sem sequer falar do facto de que isso, pura e simplesmente, não se faz! É tão bom sentir que fizemos a nossa parte e ao mesmo tempo nos pudemos descuidar nalguns momentos! Mas fraquejar em assuntos-base e atrofiar só pelo medo de perder alguns “amigos” é tão errado…tão discrepante…!

Ser filho é bestial; muito mais ainda nos dias de hoje. É fenomenal ver que os mais velhos se preocupam connosco, e ver que os mais novos nos querem como exemplo. Guiamos e somos guiados. Fazemos companhia e sentimo-nos acompanhados! A nossa função principal é… estar. Simplesmente estar. Não desaparecer, não achar que os outros grupos são mais importantes, que precisam mais de nós. Não há ninguém que precisa mais de nós do que aqueles que nos criaram…Ser família é sermos um corpo presente, constante; e se tivermos a noção de que a nossa opinião e participação nas questões familiares têm um valor insubstituível, já demos um grande passo. Resta só ir buscar esta “pachorra” para estarmos e sermos um corpo presente…ao nosso passado; talvez à altura em que não sabíamos andar… aí, todos tiveram “pachorra” para nós!
Aos pais:
- A posição por si só é vantajosa! A alegria de se ser pai é maior ainda do que a de ser filho! E Não é um fardo, é um cargo. É um estatuto que se assume e que se quis assumir e, por isso, é nosso. É uma relíquia que ninguém nos pode tirar, e é - provavelmente – a melhor sensação do mundo! Por isso, qual é a ideia de não a viver diariamente? E qual é o drama em vivê-lo, diariamente, com “ganas”? Antigamente, é que era dramático! Ver um filho partir para a faculdade e só voltar a falar com ele se ele quisesse responder à nossa carta… Irra! Que drama!
Agora? Estão tão perto… E querem estar perto dos pais! Como é natural, vão querendo “afastar-se” à medida que crescem, à medida que podem ter mais “liberdade”. Mas não há nada melhor para um filho do que voltar para casa. Sentir companhia! Não há nada melhor do que estar em casa e poder falar com o pai e a mãe sobre o dia, sobre os estudos, sobre as “noitadas”, sobre os namoros e sobre… sobre tudo. Faz parte! E este incentivo pode e tem de partir, não só mas também, daqueles que gerem este negócio da família!
Peço que não tomem estas linhas como uma tentativa de encontrar verdades supremas. Não o são nem por sombras. Sinto, pelo que vejo!
Sinto, pelo que vejo, uma pequena pedrinha no sapato das famílias, e que “baralha” as cabeças dos pais e dos filhos: a falta de limites. Não há nada de mal em cortar as asas a algumas asneiras ou “tiques” dos filhos… aliás, é essa a grande dificuldade e a grande missão dos pais! É importante que eu, como filho, saiba que tenho limites, e que conheça os meus limites. Enquanto vivo no mesmo tecto que os meus pais, ou entro no jogo como eles o delimitaram, ou então não jogo – e saio de casa, e vou viver para não-sei-onde. É duro, mas não é assim tanto. É a razão de ser da casa de família. Se eu vou a casa de um amigo e ele me diz que eu não posso falar alto, eu não vou falar alto – porque conheço os meus limites. Então, se os meus pais me disserem “menino, não se berra”, porque raio hei-de eu dizer que “faço o que eu quero!”? E se o disser, talvez então a resposta tenha de vir acompanhada de um castigo ou de uma “puniçãozita”… faz parte do jogo! Por isso resta que o juiz saiba colocar bem as regras em cima da mesa e as saiba cumprir! De resto, basta simplesmente… estar. Estar, e desfrutar!
Falar de um pai que ama um filho não é tabu. O que é difícil, para um filho, é perceber o que é que uma palmada tem de amoroso! Para isso, basta que o filho sinta no pai um confidente, o primeiro poiso, um corpo presente – e estável. Maior drama do que o filho fumar talvez seja não contar ao pai que o faz (se tiver idade!). Ao mesmo tempo, confiar cegamente em alguém implica, incondicionalmente, muitas horas de conversas, muita cumplicidade, muitas “dicas”… Não é possível eu contar a minha vida a alguém com quem nunca falei sobre nada sério! Eu tenho de sentir que é uma conversa saudável, que me ajuda ou que me leva a tomar uma decisão que parecia mais difícil. Para isso, a receita – e repito-me irritantemente muito – é simples: é Estar!
E é tão bom fazer parte de uma família. E digo-o porque adoro. Digo-o porque em todas as famílias se fala a mesma língua e não nos arriscamos a fazer “partes-gagas”.

E digo-o porque adorava ver – e sentir – que há mais famílias a viver assim; com mais ou menos dramas, mas assim… Que há mais gente, como eu, ansiosa por cultivar cada vez mais este Dom!

terça-feira, 12 de abril de 2011

Eu conto-vos um conto!

Uma canção de Amor


Segunda-feira. João decidiu naquela manhã ignorar o despertador que lhe berrava desde as seis horas. Quis sentir-se rebelde, sem regras, sem horários para nada. Ali, deitado na cama ao lado da sua eterna Maria, queria desfrutar de tudo o que a vida lhe tinha dado. João observava o seu sono profundo, contemplando as suas feições belas e o seu perfil de sereia.

Do outro lado do colchão, a sua eterna Maria ressonava profundamente… Naquela mesa-de-cabeceira permanecia a luz de um candeeiro, acesa desde a noite anterior, que fazia companhia a um cinzeiro sobrelotado. Era uma mesa redonda, com uns restos de chocolate das várias vésperas, que ia estando inclinada para dentro, para o lado da cama. De tal forma inclinada que o comando da TV foi acompanhando o desnível em direcção à cama para se ir encostar ao nariz de Maria. A imagem de desconforto era de tal forma evidente que, se o Fernandinho ou a Belimundazinha decidissem entrar pelo quarto dentro, provavelmente se perguntariam por onde é que a mamã conseguiria respirar…

Mas a verdade é que respirava. Senão, não ressonaria tanto….

A cama tremia com o ressonar de Maria. Todo aquele corpo pesadão dançava com uma violência ritmada. Inspirava, e depois…. Ex...pi…ra…va… Inspirava, deixava o sol brilhar lá fora, os pássaros cantar, as crianças correr pela casa, deixava DaVinci terminar a capela Sistina com todo o tempo do Mundo, deixava até Pedro Abrunhosa inventar uma música nova em que mais de quatrocentas palavras se uniam e formavam uma melodia anarquicamente complexa e talvez até demais para os Deolinda… Mas depois…ex…pi…ra…va! Trevas! Trovões! Guerra dos Mundos! Invasões napoleónicas com tanques de guerra! Uma Kalashnikov a disparar sem alvo! Pim-pam-PUM! Tsunami! Cá vai bomba!

Mas João já estava atrasado! Não podia continuar na cama porque alguém tinha de trazer o dinheiro no fim do mês, e essa não poderia ser uma tarefa para a sua Maria, coitadinha, que tinha sempre tanto sono… Por isso, deixou a “ronha” que já se prolongava há dois minutos e cinquenta e oito segundos, tirou os óculos da sua mesinha-de-cabeceira e arrumou um bocadinho melhor o livro que lá estava, só para não cansar a sua amada quando ela acordasse. Ergueu as costas e sentou-se com os pés para fora da cama, sacudiu logo a almofadinha e espreguiçou-se baixinho, para não incomodar a sua bela adormecida, que ele tanto contemplava…. Era incrível, para João, observar que a sua Mariazinha conseguia estar cada vez mais bonita e saudável com o passar dos anos! E ali ficou, cerca de vinte e cinco minutos, a contemplar a sua mais-que-tudo, a sua florzinha, o seu texugo, a sua sereia delgadinha e perfeitinha…

Entretanto, Fernandinho e Belimundazinha brincavam aos Legos na sala. Mas só enquanto a mamã inspirava… Depois disso, a diversão passava por reconstruir o castelo do General Bigodes e esperar pelo novo terramoto!

A estadia de João na casa de banho demorou catorze segundos e picos. Aí, fez a barba – “que não tenho mas preciso de tirar, não vá isto começar a crescer a meio de uma reunião importante e depois eu vou ter de sair a correr e ir em direcção a uma casa de banho e remover tudo o que estiver a mais na minha cara” – lavou os dentes – “e se calhar devia mesmo passar um fio dental, não vá eu chegar ao escritório e ter um bocadinho de comida entre os dentes e não ter reparado a não ser já a meio de uma reunião importante da qual eu depois vou ter de sair a correr e ir em direcção a uma casa de banho e remover tudo o que estiver a mais na minha boca” – e tomou todo um duche com champôs anti-caspa, sabonetes líquidos, amaciadores e condicionadores, para cabelos lisos, brilhantes e firmes. Maria ficaria triste se soubesse que, a meio de uma reunião de segunda-feira, João tinha passado por uma embaraçosa queda de cabelos…

No carro de João, a música não variava muito; o posto de rádio, esse, era inalterável: “Amor cego FM, a rádio da mulher da sua vida.” Entre tantos êxitos musicais que ouvia nestas manhãs, havia uma melodia que João conhecia de trás para a frente: “Lágrimas de uma sereia”, o último êxito de Marco António, o ‘cantor do Amor’. Os versos, aparentemente simples, carregavam uma mensagem calorosa, com juras de amor eterno e repleta de beijos, carícias e sofás vermelhos com pétalas de um coração cristalino. Estas quadras de loucuras emocionais levavam o coração emotivo de João a telefonar, todas as manhãs, para a Linha do Amor, sediada nos estúdios da Amor Cego FM, a pedir para que passassem as harmonias de Marco António:

- Bom dia! Estou a falar com..?

- João, o apaixonado!

- Olá mais uma vez, meu caro amigo João! Então, como vai a sua relação com a nossa querida… Maria, certo? Sempre lhe ofereceu aquele conjunto de copos de cristal para celebrar o vosso aniversário de casamento?

- Sim! Ela agradeceu muito e disse que me ia recompensar…!

- E já recompensou?

- Ela recompensa-me todos os dias, com o seu sorriso lindo…

- Ora aqui está, nossos caros ouvintes, um exemplo de amor eterno! Todos os dias este nosso amigo João surpreende a sua amada com presentes e gestos de carinho espectaculares! (v.) Ó João, diga lá então – vejam que até rimei! - o que vai querer ouvir esta manhã na sua Amor Cego…

E mais uma vez, João pedia que passassem Marco António e a balada da sereia, naquela telefonia do carro cujas colunas gemiam pelo volume tão alto que tinham de reproduzir! E todos os dias se ouvia aquela balada. E todos os dias se ouvia a conversa da recompensa: ela recompensava-o todos os dias, com o seu lindo sorriso, mas nunca com presentes nem juras de amor eterno. Mas isso não o incomodava. A João incomodava-lhe mais se soubesse que o Fernandinho tinha acordado a mamã às três da tarde a perguntar se hoje iria às aulas. “Raça do miúdo! Se quiser ir às aulas, que pegue numas moedas e apanhe o autocarro! Tem seis anos, já tem idade! Ele que deixe a minha pequena sereia dormir descansada! Coitadinha, anda sempre tão cansada…”

O dia de trabalho no escritório parecia uma eternidade. A única consolação de João cingia-se ao facto de ter enfeitado a sua secretária com fotografias da sua amada: o ecrã do computador tinha a imagem do seu anjo; o pano que permite deslizar o rato do computador tinha sido personalizado e exibia agora uma imagem do seu anjo; o calendário ia ainda em 2010 e dizia, nesse mês: “Amo-te, meu anjo, só porque é Abril!”; a moldura centrada na sua secretária tinha a forma de um coração com uma foto do dia do seu casamento, à porta da igreja, onde aparentemente choveu arroz.

Mas o dia de trabalho no escritório parecia uma eternidade para João... Não lhe bastavam as fotografias, o fundo de ecrã do telemóvel com um poema de Amor que este lhe escrevera, nem as músicas de Marco António que continuava a ouvir, apaixonadamente, no seu transístor. Enquanto não estivesse nos seus braços, enquanto não a sentisse a apertá-lo com a força do amor e a garra de quem ama, não conseguiria sentir-se realizado.

Então nessa segunda-feira João pediu ao seu patrão para sair mais cedo, justificando-se com uma ida ao médico. Pegou no carro e voou, em direcção a casa, aproveitando todos os atalhos que conhecia, até aqueles de sentido proibido. Na viagem, conduzia com a mão direita e aumentava sistematicamente o volume das pobres colunas de som com a esquerda, sempre que ouvia a doce voz de Marco António. Assobiou alguns dos versos daquele cantor, (o.r.e.) que já considerava ser da sua família, declamou poemas de amor e acompanhou a versão portuguesa do “All you need is Love” que passava agora na Amor Cego FM.

Os poemas amorosos que João escrevera para ela na semana anterior tinham agora um lugar especial no seu reportório musical. O carro chiava nas curvas, as colunas calavam-se nas lombas, mas João, esse, não parava nem por um segundo de cantar à sua amada.

Chegou a casa.

Sem avisar.

Vinha-lhe preparar um jantar surpresa.

Atravessou a entrada, a cozinha e a sala, sempre lentamente…. para não a acordar….

Sem querer, pisou um brinquedo do Fernandinho: o ainda firme General Bigodes. Mesmo assim, e entre gemidos silenciosos de uma dor insuportável, o apaixonado caminhou, determinado, acompanhando-se do seu General em direcção ao quarto. Com uma caixa de bombons na mão direita - e o Bigodes no pé esquerdo – cumpriria a penosa mas sempre recompensadora missão de declamar poesia à sua Fofinha. Avançou, pé ante pé, até à porta do quarto, até que inaugurou aquela tarde poética:

“Oh! Meu amor! Oh! Minha amada! Oh! Pétalas de sol que brilham no horizonte ofegante de um amor que não esqueci! Por detrás das grades que nos separam de nos abraçarmos está uma libelinha apaixonada que regozija no meu peito!”

“Ó mar salgado, inundar-te-ei no dia em que morrerei pela minha Maria!”

Mas Maria não respondeu.

João entrou, e Maria não lá estava. Em cima do cinzeiro que agora estava na cama via-se um bilhete amarrotado. João parou. Avançou para o bilhete. Abriu três quartos da folha, começando a ler devagarinho…

“João…”

“Desculpa…”

“Mas às vezes, o amor… tem destas coisas….”

“Hoje acordei e decidi fugir….”

“Conheci um homem fantástico…”

“Chama-se…”

João teve de abrir o último pedaço da folha para poder continuar:

“Chama-se Marco António. É o cantor do Amor. Ele fez-me juras de amor eterno.”

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Rapsódia fadista

O filme que aqui é apresentado foi colocado recentemente a circular pelas redes sociais, e o "feedback" tem sido impressionante. Este é um pequeno exemplo da qualidade fadista portuguesa, da alegria como se canta o Fado pelas casas de Lisboa e da diversidade estilística que as novas gerações têm vindo a trazer para este meio. Tudo isto é genuíno, tudo isto é único.
Agora, silêncio... Que se vai cantar o FADO!


Guitarras Portuguesas:
 - Bernardo Romão
 - Diogo Lucena e Quadros

Viola de Fado:
 - João Veiga
 - Luís Roquette

Baixo:
 - Francisco Gaspar

Fadistas ( por ordem de artista):

- Francisco Salvação Barreto
- Matilde Marçal
- João de Sousa Franco
- Carmo Moniz Pereira
- Francisco Franco de Sousa
- Leonor Granate
- Gonçalo Castelbranco
- Isabel Costa de Sousa
- Manuel Marçal

Desde já um agradecimento especial à produção do vídeo, composta pelos irmãos Carlos e Vasco Vieira!

segunda-feira, 28 de março de 2011

Crítica a um livro de Mário de Carvalho

Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto

Mário de Carvalho

Edições Caminho



Uma viagem ao ‘Portugal dos pequeninos’



Seria realmente interessante trocar algumas ideias sobre este assunto ‘puxado’ por Mário de Carvalho: a sociedade. Esta é uma obra baseada nas pessoas, e não no enredo. O autor escolhe personagens típicas dos dias de hoje, que dão a sensação de serem pessoas reais, à semelhança daqueles que pertencem aos pequenos ‘mundos’ dos próprios leitores. É quase inevitável ouvir-se daqueles que já leram o livro algo como ‘este Joel é igual ao meu amigo Carlos, que também tinha sempre umas histórias muito estranhas…’ ou mesmo que ‘esta Eduarda parece a minha ex-namorada!’

A novela relatada pelo autor tem como fio condutor a vida de Joel Neves, um “cinquentão e de físico para o esguio”, pai de um rapazinho delinquente que é incrivelmente ‘apaparicado’ pela sua mãe. Esta figura maternal – Cremilde – acompanha a vida do filho a todo o tempo, dedicando-se a cuidar dele enquanto o marido exerce as suas funções de “bibliotecário” para as quais terá sido ‘promovido’. Pelo caminho, aparece Eduarda Galvão que, sem acrescentar detalhe algum, se afigura como a nora que ninguém deseja. As páginas vão passando, e os acontecimentos da vida do protagonista vão-se misturando com outras vidas, com outros (interessantes) dramas familiares, profissionais e políticos.

Mário de Carvalho avisa os leitores, logo antes do início da obra, que “este livro contém particularidades irritantes para os mais acostumados. Ainda mais para os menos. Tem caricaturas. Humores. Derivações. E alguns anacolutos.”.

E é verdade. Especialmente, a parte das descrições “irritantes” e exageradamente completas que o autor faz questão de aplicar na sua escrita. Não é menos verdade, no entanto, que as descrições são incrivelmente esclarecedoras e enriquecem a obra em toda a sua extensão; se Mário de Carvalho não as tivesse explorado desta maneira, decerto este seria um dos livros mais aborrecidos da História…

Os lugares, as gentes e os momentos são, então, de tal maneira bem descritos que o leitor até se sente parte da história. Sente-se tão omnisciente quanto o próprio narrador, um exímio avaliador de tudo o que envolve a novela. As suas apreciações no desenrolar dos acontecimentos revelam-se tão intensas que Mário de Carvalho acaba por gozar com tudo. Nem o vinho que se encontra à mesa de uma tasca castiça desinteressa ao narrador: sim, aquela “horrenda zurrapa, mas que ali, convencionalmente, ganhava foros de tinto-da-casa-como-se-não-encontra-noutro-lugar,-vindo-especialmente-dum-armazém-de-Palmela.” O humor aplicado na narrativa é tudo menos suave, e ele próprio faz questão de que assim o seja.

Aliado às descrições, o vocabulário utilizado pelo escritor afigura-se incrivelmente requintado, ao mesmo tempo que apresenta uma narrativa simpaticamente explicativa onde não permite que se perca «o fio à meada». Esta é a particularidade mais engraçada do livro: Mário de Carvalho pretende descrever as ‘personagens’ e os lugares da nossa sociedade, e fá-lo muitas vezes de uma forma muito extensa – e até pejorativa; porém, quando sente que está a ser demasiado descritivo e minucioso, regressa ao assunto contextualizando a descrição e explicando, sempre que necessário, o porquê de tanta precisão.

O título da obra não é, à partida, muito apelativo. A opção por este “Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto” dá a sensação de que o livro se vai encher de divagações, opiniões carnívoras sobre assuntos delicados, ou que simplesmente o autor quer esclarecer assuntos pendentes da sua vida pessoal. Na verdade, o título é parte integrante da obra. Aliás, o título suporta toda a obra, porque se encontra por diversas vezes nas linhas – mais tardias – do livro. Por outro lado, toda esta narrativa é premiada com discussões ‘de cafés’ e com personagens que fazem questão de ‘opinar’ sobre tudo e sobre todos, sempre convictos de que ter razão é a razão das suas existências.

No fim de contas, quem tem razão é Mário de Carvalho. As sociedades contemporâneas encheram-se de ‘personagens’ complexas e intrigantes, que se envolvem diariamente em peripécias esquisitas e, por vezes, até humilhantes. Este livro será, então, o condensar de todas as caricaturas da sociedade - portuguesa - num enredo realístico e verdadeiramente interessante. Com uma pitada de humor, por vezes até negro, o autor conta a história de um “Portugal dos pequeninos” onde tudo e todos são tema de conversa.

Era bom que trocássemos umas ideias sobre este assunto de duzentas e treze páginas…

sábado, 19 de março de 2011

Um Engenheiro Civil

Foi na faculdade de Engenharia Civil que Gonçalo Andrade e Sousa sentiu que estava no caminho certo. Com um período de adaptação relativamente longo, por vezes até desgastante, hoje este aluno do 3º ano do Instituto Superior Técnico de Lisboa está confiante em relação ao seu futuro, demonstrando-se orgulhoso por poder frequentar uma faculdade tão prestigiada e bem preparada para formar Engenheiros competentes como é o Técnico. A bagagem que levam daqui é grande. A fasquia que lhes impõem é, também, por isso, bastante elevada...

GCB. - Acontece-te muitas vezes não ires a uma aula para ficar em casa a estudar para uma cadeira?
GAS. - Hoje em dia já não faço isso...
No primeiro ano, declaradamente, achava que havia cadeiras que não valia a pena frequentar. Preferia ficar em casa a estudar, pelos livros. Hoje em dia prefiro ir às aulas. Ao fim ao cabo, reduz-me o tempo de estudo...

GCB. -  A carga horária é exageradamente pesada? 
GAS. - A carga horária não é pesadíssima. O volume de estudo é que é enorme. Chega a ser, em casa, igual ao tempo que gasto na faculdade. Ou seja, imagina que tenho quatro a cinco horas de aulas por dia, à tarde. Depois em casa, estudo mais duas ou três horas ainda nesse dia. Aliás, eu até prefiro este horário de tarde, porque consigo estudar muito mais à noite do que durante dia. Rende-me bastante mais estudar a essas horas.



GCB. - E o grau de dificuldade do IST é também enorme?
GAS. - Não é enorme... O curso, em si, é difícil. Há cadeiras com um grau de dificuldade enorme, mas depois há cadeiras menos difíceis. Portanto, em média, o grau de dificuldade é difícil.

GCB. - Qual foi o ano mais difícil até agora?
GAS. - Em termos de cadeiras foi o segundo. Deixei seis cadeiras nesse ano. Mesmo assim, ainda tive de passar a quatro cadeiras de 1º ano...
Este 3º ano "arrumei" tudo o que estava para trás dos primeiros semestres e fiz mais duas cadeiras de 3º ano.


GCB. - E como é que foi a adaptação ao primeiro ano de Faculade?
GAS. - Acabei com 16.6 valores no Colégio para entrar em Engenharia. Quando cheguei ao Técnico, o choque foi grande. É uma realidade totalmente diferente. Muito mais exigente. Se bem que o primeiro semestre do 1º ano me tenha corrido relativamente bem. Mas, manter esse ritmo de estudo... Isso é que se torna mais difícil...!

GCB. - E depois o 2ºano...?
GAS. - Mesmo em termos de material leccionado, o 2º ano foi o mais difícil...
No primeiro ano recebem-se as bases, mas no segundo sentimo-nos a entrar no "ex-libris" da dificuldade...

GCB. - Qual a tua cadeira preferida até agora?
GAS. - Resistência dos materiais, do 2º ano. Já a chumbei mas estou a repetir agora. É a cadeira que se associa mais ao curso em si.

GCB. - Fala-nos um bocado dessa disciplina...
GAS. - Começa-se por consolidar as bases de mecânica, ou seja, análise de corpos rígidos, as acções das forças sobre os corpos estáticos, e depois introduz-se a análise de estruturas. Ou seja, aprendes tudo sobre compressões e tracções, observas os comportamentos dos materais e acabas a estudar flexão de vigas.


GCB. - Em relação aos dias de aulas, perdes muitas vezes a noção da semana, ou vais-te situando consoante as cadeiras que vais tendo durante os dias?

GAS. - As minhas semanas não são muito "rotineiras". Têm uma certa dînâmica.... Há dias em que eu falto a uma ou duas aulas e, se calhar, no dia a a seguir já compensei a falta com uma aula de dúvidas.

GCB. - E tens aulas de dúvidas sempre que precisas?
GAS. - As aulas de dúvidas são estipuladas pelos professores. No início do ano, eles estipulam aulas teóricas, práticas, aulas de dúvidas, etc... Fora disso, são quase incontactáveis. Talvez por isso é que estipulam tudo logo no princípio...



GCB. - Fora da tua vida no Técnico, quais são, então as tuas principais distracções?
GAS. - Basicamente aproveito para jogar futebol e sair à noite... Mas também não fixo, por exemplo, a Sexta-feira ou Sábado para ir sair. Já passei essa fase, acho eu...!

GCB. - Agora vejamos em tom de "previsões para o futuro"... Sentes que estás a adquirir as bases necessárias para ser um bom engenheiro civil?
GAS. - É engraçado que eu não consigo dizer com toda a certeza que sim, mas pela reputação que o IST tem, e até pela dose "industrial" de material teórico que recebes 'da coisa', tenho quase a certeza de que vou mais do que bem preparado. A ideia que eu tenho sempre é de que tu precisas sempre de saber "x", mas no IST ensinam-te "x mais 100"; e tu, para saberes o "x mais 100" tens pelo menos de saber esse "x" muito, muito bem...

GCB. - É essa a prioridade dos professores?
GAS. - Sim, sim... Por exemplo, nesta cadeira de Resistência dos Materiais tens Resistência dos Materiais I, Resistência dos Mateirais II e acabas com uma parte de Análise de Estruturas, que é um "pegar em tudo" e aplicar para dentro de uma estrutura. Agora, o "tudo" que vem para trás implica um conhecimento dos comportamentos dos mateirais enorme. Ou seja, estudamos exaustivamente todas as possíveis situações e desafios desta profissão. Mas imagino que, na realidade, e enquanto engenheiro, provavelmente não terei de aplicar metade das coisas que aprendi.

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